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08/07/2013

UMA LEITURA SOB A ÓTICA DE “RELAÇÕES DE GÊNERO”

Formamos um grupo de estudos sobre a temática, desvendando a forte e pesada desigualdade nas relações de Gênero dentro da Igreja.

Confesso que não é fácil fazer uma leitura na ótica de Gênero dos 50 anos do Concílio Vaticano II. Vivemos um tempo já mais plausível dessa questão na sociedade. Nas Igrejas, o assunto é abordado e acolhido timidamente. Menos ainda vivido, pois na prática, pouco alcançamos concretizar.

Também nosso tempo é muito restrito para uma ampla análise. Limitar-me-ei a fazer um olhar bastante rápido sobre o Concílio e seus 50 anos, abordando a presença das mulheres no Concílio e algumas de suas práticas nas lutas por igualdade, dignidade, respeito e participação das mulheres neste caminho.

O concílio desde suas origens, mesmo embrião, já foi abrindo rupturas dentro de um poder hierárquico bem centralizado. Destaco três pontos. 1. Foi a imprensa que por primeiro o anunciou, contribuindo para que João XXIII pudesse levar em frente sua intuição de realizar um Concílio; 2. O papa, que havia nomeado uma comissão para pensar assuntos para o mesmo, como eles não encontravam, buscou outros caminhos, partindo da valorização e do diálogo que começou com os bispos na busca de assuntos. Assim já foi descentralizando o poder e abrindo a diversificação de possibilidades e à participação do colegiado;  3. Ao iniciar o Concílio Vaticano II, em 11 de outubro de 1962, além dos 2500 Bispos havia a participação de superiores maiores de algumas Congregações masculinas e  representantes de outras igrejas cristãs e um leigo convidado – Jean Guitton – embora,  apenas como “ouvinte”, e nenhuma mulher.

Num contexto em que as mulheres ocupavam poucos espaços nas instâncias de poder civil é interessante observar que, de setembro de 1964 a julho de 1965, o Papa Paulo VI, por sugestão do Cardeal Suenens – que, percebeu que sem ouvir as mulheres era impossível realizar um Concílio eclesiológico sem a participação das mulheres que são a maioria do povo que compõem a Comunidade eclesial –.  O papa convidou 23 mulheres como “auditoras”[1] sendo 10 religiosas e 13 leigas. Foram escolhidas em sua maioria segundo critérios de internacionalidade e de representação. Foi a primeira vez na história da Igreja católica que houve a possibilidade de conjugar a fé eclesial com a contribuição das mulheres num Concílio. Na intenção de muitos padres conciliares, deveria ser uma presença de caráter apenas simbólico. E mesmo, não tiveram direito a voto e nem de palavra pública. Deveriam presenciar as reuniões vestidas de preto, com um véu na cabeça, mesmo as leigas, como em uma função pontifícia.

A uruguaia Gladys Parentelli, mais jovem de todas, recusou-se a isso, comparecendo com a cabeça descoberta e de mangas curtas e, por isso, não foi incluída na foto oficial do grupo.

Na realidade, elas foram tudo, menos simbólicas, participando com determinação e competência nos trabalhos das comissões, mesmo que várias, trabalhando nos bastidores.

A estas auditoras juntaram-se ainda umas 20 mulheres ou mais, a título de “especialistas”, como a economista Barbara Ward, perita em questão da pobreza e desenvolvimento humano; Patricia Crowley, uma autoridade nas temáticas relativas ao controle da natalidade; Eileen Egan, uma pacifista...

Mesmo que sua presença foi mais nas duas últimas sessões do Concílio, a terceira (14 de setembro a 21 de novembro de 1964) e a quarta (14 de setembro a 8 de dezembro de 1965), foi particularmente viva e significativa, deixando sinais importantes nos próprios documentos conciliares. Sabine de Valon, eleita Superiora das auditoras tendo entrado na aula conciliar cheia de entusiasmo – saudou esse momento como "a passagem da sala de espera para a sala de visitas".

A influência das auditoras se deu, sobretudo em dois documentos nos quais elas haviam trabalhado a partir das subcomissões: as constituições Lumen Gentium, que sublinhou a rejeição de qualquer discriminação sexual, e a Gaudium et Spes, em que surgiu a visão unitária do homem e da mulher como "pessoa humana" e a igualdade fundamental dos dois. Houve outras intervenções de autoridade de algumas delas (por exemplo, de Goldie, de Bellosillo e de Guillemin) para que a afirmação da dignidade da pessoa humana superasse toda desconsideração especialmente sobre o feminino, e também o primado da paridade fundamental, conferido pelo batismo às pessoas que creem. Este confere a todos e, portanto, também às mulheres, o princípio da corresponsabilidade apostólica (LG 10.11.12).

De grande relevância foi também a superação da tradicional concepção contratual e jurídica da instituição familiar, através da recuperação do valor fundamental do amor conjugal, fundamentado em uma "íntima comunidade de vida e de amor". Nessa perspectiva, a contribuição de Luz María Alvarez e do seu marido José Alvarez na subcomissão da Gaudium et Spes foi determinante para mudar a Teologia do matrimônio na união conjugal, que deve ser considerada não como "remédio da concupiscência" ligado ao pecado, e apenas para a procriação, mas sim como expressão e ato de amor.

As auditoras religiosas – (embora não foram autorizadas a fazer parte do grupo de trabalho sobre o Perfectae Caritatis, documento que diz respeito especificamente à vida religiosa consagrada), muito contribuíram, escrevendo recomendações e propostas que chegaram à comissão que trabalhava no documento, através de bispos amigos. Eram as Religiosas aí presentes representando suas Congregações e outras entidades, que traziam as angústias, sonhos e lutas para encontrar novos caminhos que a muito buscavam e que respondessem a esses anseios abrindo caminhos de luzes. Estas e outras mulheres mesmo não sendo teólogas, tinham a prática da defesa da vida.

Desempenharam elas, um papel importante ao colocar em ação o "aggiornamento" da vida religiosa, desencadeando processos de inovação da forma de vida e missão da Vida Religiosa Consagrada. Incentivadas pelo seu “sexto sentido” no amor e solidariedade aos mais vulneráveis e desumanizados, pela sua condição de pobreza e até miséria e, posteriormente, com as conferências de Medellin e Puebla. Estas duas conferências, (diz João Batista Libânio{?}) foram a realização do Concílio na AL, superando  em grande parte a colonização do Cristianismo, trazido à AL sob o modelo romano.

Essas Religiosas postularam seu reposicionamento: O centro da Vida Religiosa é Jesus de Nazaré e sua mensagem. Necessário se faz o resgate da dignidade pessoal de cada membro da comunidade e da sua inserção no mundo, especialmente no meio dos pobres para responder a tantos desafios em questão da dignidade humana, da justiça, da paz e da liberdade.

O processo de Evangelização da América Latina exigiu uma nova teologia que respondesse à inculturação da Boa Nova de Jesus de Nazaré. E nisso, a grande luz foi e Dei Verbum (DV) que nasceu pela grande colaboração do movimento Bíblico surgido na AL muito antes ainda do Concílio. Um povo muito massacrado pelos desafios desta realidade sofrida que se vivia em todo o contexto LA. Muitos movimentos sociais Grupos, instituições... lutavam buscando caminhos de luz às militâncias que já não encontravam resposta numa Igreja de modelo tridentino, nessa sociedade repressora das ditaduras militares. Esse movimento aproximou católicos e evangélicos e também Judeus no que se refere ao 1oT, preparando caminho para o Ecumenismo e o Diálogo Inter-religioso.

A nova Teologia que nasceu foi a TdL, que já estava latente na dura e sofrida realidade, que provocava gritos ensurdecedores de milhares de pessoas e, respostas de Deus que sempre ouve o clamor de seu povo e estende seu olhar num processo libertador, por isso, desce para libertar (Ex 3).

Desde dentro desta Teologia, foram surgindo outras Teologias, como a Índia; a Negra e a Feminista. Hoje já vem surgindo a Teologia Queer[2], ainda em forma embrionária. Essas, têm contribuído muito para a inculturação do Evangelho e o resgate de muitos povos, quase que dizimados. A Teologia feminista abriu brechas na interpretação Bíblica fazendo ampliar a exegese tradicional para uma exegese que abre novas hermenêuticas, especialmente pela chave analítica de relações de Gênero, desconstruindo situações de mesmice para deixar emergir tantas vozes silenciadas pela mão do redator, por tantas histórias de opressões e por interpretações equivocadas dos textos Bíblicos. Já não se pode mais fazer uma leitura e interpretação Bíblica pelo eixo patriarcal dos grandes protagonistas homens: Abraão, Isaac, Jacó, Moisés, Josué, Salomão, profetas, Jesus e os Apóstolos... essa se desconstrói com uma leitura feita exegeticamente com novas chaves de leitura.

As mulheres buscaram as Universidades e, aos poucos as portas foram se abrindo. Buscaram também a teologia, mesmo com restrições e enfrentando dificuldades e resistências, não desistiram. Atualmente temos muitas teólogas, antropólogas, historiadoras, exegetas e biblistas.

Outro avanço na AL (América Latina) foi o resgate da Lectio Divina feito pela VRC em resposta aos apelos de João Paulo II quando da visita no Haiti/Porto Príncipe por ocasião dos 500 anos de Evangelização da AL. Nesta ocasião, João Paulo II desafiou para uma Evangelização Nova no ardor, no método e na expressão. Este desafio foi acolhido pelos representantes da CLAR (Conferência Latino Americana dos Religiosos) aí presentes e desencadeou na devolução da Bíblia na mão das religiosas que antes pouco acesso tinham e se tinham faltava metodologia para trabalha-la. A LD vai capacitando-@s para sua missão profética. Esta, hoje, já vai se difundindo também no mundo leigo.

 

Mesmo que surgiram resistências ao processo de identidade própria da Igreja Latino americana, especialmente no que tange as expressões eclesiais que denominamos:  TdL (Teologia da Libertação),  opção pelos pobres; as CEBs- Novo jeito de ser Igreja- e a leitura popular da Bíblia. E, mais tarde, também a Teologia e a Leitura Feminista da Bíblia; esta Igreja continua seu processo, mesmo que timidamente.

Ficou célebre a resposta que Rosemary Goldie – secretária executiva da Comissão Permanente dos Congressos Internacionais para o Apostolado dos Leigos – deu ao grande teólogo Yves Congar. No âmbito do debate sobre o esquema do apostolado dos leigos, ele quis inserir no documento uma elegante (mas condescendente) comparação das mulheres à delicadeza das flores. A australiana reagiu assim: «Padre, deixe lá as flores. O que as mulheres querem da Igreja, é ser reconhecidas como pessoas plenamente humanas».

Podemos dizer, portanto que, o significado que o Concílio representou para as mulheres vai muito além das poucas referências explícitas presentes nos seus documentos. Isso significou uma nova metodologia ao se reportar aos problemas da humanidade, conferindo novamente dignidade à pessoa, reconhecendo em todo/a batizado/a a função real, profética e sacerdotal, abrindo novos espaços de responsabilidade e de participação dentro da Igreja e como Igreja- povo de Deus, no mundo construindo o Reino do Deus da Vida. O Concílio não quis definir, mas sim abrir janelas para um mundo em transformação, pedindo que a Igreja se renovasse e se atualizasse. As mulheres tiveram e têm cada vez maior contribuição nessa concretização.

As leigas e leigos, mulheres e homens, não são mais relegados à passividade e à receptividade, mas recebem um papel ativo e importante na Igreja. Foi isso que o Concílio evidenciou com a definição de Igreja como Povo de Deus (LG). Na Igreja todos/as são sujeito da missão (LG 17). E a missão envolve também a evangelização do social e do político. Como dizia Paulo VI, a Igreja tem uma autêntica dimensão secular, inerente à sua íntima natureza e missão, cuja raiz mergulha no mistério do Verbo Encarnado e que se concretiza de formas diversas para os seus membros (Christifideles Laici, 15). Todos os membros da Igreja participam da sua dimensão secular, mas de maneiras diferentes. Na verdade foi a IV Conferência do Episcopado Latino americano e Caribenho de Santo Domingo (1992) que abriu para o protagonismo dos leigos/as.

No entanto, fica evidente ainda a distinção na questão de gênero, quanto às instâncias da administração do Sagrado e das decisões, no que tange o poder. A Mulher ainda tem pouco espaço para decisões maiores. Enquanto que, neste pós Concílio, homens podem ser ordenados diáconos permanentes, as mulheres ainda são excluídas da liderança e das tomadas de decisões. Eis um grande desafio! As mulheres têm a missão de junto com os homens, zelar e fazer acontecer o sonho de Deus expresso em Gn 1 e 2, onde ambos são criados à Imagem e semelhança de Deus e recebem a mesma missão.

O Fórum das Teólogas Indianas (IWTF) que realizou-se entre os dias 2 e 4 de maio de 2013, no Centro de Espiritualidade Montfort, em Bangalore, refletiu sobre o tema "Mulheres e Liderança”. Entre outros temas, fez-se uma memória da Pontifícia Comissão Bíblica que o Papa Paulo VI nomeou para estudos na Bíblia que fundamentassem impedimento ou não quanto a ordenação de mulheres. Mesmo que a comissão concluiu que não há obstáculos, Paulo VI escreveu um documento denominado Inter Insigniores, contra a ordenação de Mulheres, contradizendo os resultados dessa comissão provocando a renúncia de um de seus membros, o Jesuíta David Stanley, professor de Sagradas Escrituras.

Os próprios Padres conciliares denominaram as mulheres presentes de: "mães". A pergunta é: com qual das duas concepções que se tem de mãe, os conciliares fizeram essa referência? Temos que considerar pelo menos duas: a) uma que a considera confinada às tarefas domésticas e de ajuda de baixo perfil e b) outra que a considera na sua inteira potencialidade de inteligência e de atenção, compreendidas como entendeu a padroeira da Europa Edith Stein, como capacidade de escutar o/a outro/a, de o saber acolher e o de resgatar.

Percebe-se uma visão bem patriarcal, na mensagem de conclusão do Concílio às mulheres que faz Paulo VI. O papa insiste em relegar à mulher o lugar “privado”, destacando seu papel como esposa, mãe e educadora e ainda, na sua responsabilidade pelo homem.

Sem dúvida nenhuma, o Concílio foi e continua sendo um acontecimento histórico na caminhada de nossa Igreja. Toda a abertura e profecia dele emanadas, continuam lançando luzes e exalando o perfume da esperança em tempos hodiernos de um dia alcançarmos viver a equidade de Gênero em nossas relações, quer seja na Sociedade, quer seja na Igreja.

 

[1] . Em ANEXO, se encontram os nomes das mulheres participantes e sua referida representação.

[2] Teologia Queer, como denomina André Musskopf, em sua tese doutoral, VIAGENS TEOLÓGICAS, Itinerário para uma Teologia Queer no Brasil. Fonte Editorial, 2012.