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06/12/2013 até 06/12/2013

UM ANÚNCIO PRAZEROSO

No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um homem chamado José, da estirpe de Davi; e a virgem chamava-se Maria.

Entrando onde ela se encontrava, o anjo disse:

- Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo; bendita és tu entre todas as mulheres.

Ela se perturbou ao ouvir estas palavras e perguntava-se a si mesma que saudação era aquela.

O anjo disse-lhe:

- Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. Conceberás em teu ventre e darás à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus. Ele será grande, chamar-se-á Filho do Altíssimo, o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai; Ele reinará sobre a casa de Jacó para sempre e seu reino não terá fim.

E Maria disse ao anjo:

- Como será isto, pois não conheço varão?

O anjo respondeu-lhe:

- O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com sua sombra; por isso, o santo que vai nascer será chamado Filho de Deus. Eis que tua parenta Isabel, apesar de sua velhice, concebeu um filho, e já está no sexto mês aquela que chamavam de estéril, porque para Deus nada é impossível.

Maria respondeu:

- Aqui está a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1,26-38).

ANÚNCIO SURPREENDENTE

Lucas narra o anúncio do nascimento de Jesus em estreito paralelismo com o do Batista. O contraste entre as duas cenas é tão surpreendente que nos permite entrever sob uma nova luz o mistério do Filho de Deus encarnado em Jesus.

O anúncio do nascimento do Batista acontece em "Jerusalém': a grandiosa cidade de Israel, centro político e religioso do povo judeu. O nascimento de Jesus é anunciado num povoado desconhecido das montanhas da Galileia: uma aldeia sem importância nenhuma, chamada "Nazaré', donde ninguém espera que possa vir algo de bom. Anos mais tarde, os povoados humildes da Galileia acolherão a mensagem de Jesus anunciando a bondade de Deus. Jerusalém, pelo contrário, a rejeitará. Serão sempre os pequenos e insignificantes os que melhor entendem e acolhem a Boa Notícia de Deus.

O anúncio do nascimento do Batista ocorre no espaço sagrado do "templo': O de Jesus numa casa pobre de uma "aldeia': Jesus se fará presente onde as pessoas vivem, trabalham, se alegram e sofrem. Vive entre elas aliviando o sofrimento e oferecendo o perdão do Pai. Deus se fez carne, não para permanecer no templo, mas para "fazer sua morada entre os humanos" e compartilhar nossa vida.

O anúncio do nascimento do Batista ouve-o um "varão" venerável, o sacerdote Zacarias, durante uma solene celebração ritual. O de Jesus é feito a Maria, uma "jovem" de uns doze anos. Não se indica onde ela está, nem o que está fazendo: a quem pode interessar o trabalho de uma mulher? No entanto, Jesus, o Filho de Deus encarnado, olhará para as mulheres de maneira diferente, defenderá sua dignidade e as acolherá entre seus discípulos.

Por último, do Batista se diz que nascerá de Zacarias e Isabel, um casal estéril abençoado por Deus. De Jesus se anuncia algo absolutamente novo. O Messias nascerá de Maria, uma jovem virgem. O Espírito de Deus estará na origem de sua aparição no mundo.  Por isso "será chamado Filho de Deus”. O Salvador do mundo não nasce como fruto do amor de dois esposos que se amam mutuamente. Nasce como fruto do Amor de Deus a toda a humanidade. Jesus não é um presente que Maria e José nos dão. É um presente que Deus nos dá.

ALEGRA-TE

O relato da anunciação a Maria é um convite a despertar em nós algumas atitudes básicas que devemos cultivar para viver nossa fé de maneira prazerosa e confiante. Basta percorrermos a mensagem que é posta na boca do anjo.

"Alegra-te”. É a primeira coisa que Maria ouve de Deus, e a primeira coisa que devemos ouvir também nós. "Alegra-te": essa é a primeira palavra de Deus toda criatura. Nestes tempos, que a nós nos parecem de incerteza e escuridão, cheios de problemas e dificuldades, a primeira coisa que se nos pede é não perder a alegria. Sem alegria, a vida se torna mais difícil e dura.

"O Senhor está contigo”. A alegria a que somos convidados não é um otimismo forçado nem um autoengano fácil. É a alegria interior que nasce em quem enfrenta a vida com a convicção de que não está só. Uma alegria que nasce da fé. Deus nos acompanha, nos defende e busca sempre nosso bem. Podemos queixar-nos de muitas coisas, mas nunca poderemos dizer que estamos sós, porque não é verdade. Dentro de cada um, no mais profundo de nosso ser, está Deus, nosso Salvador.

"Não temas". São muitos os medos que podem despertar em nós. Medo do futuro, da doença, da morte. Coisas que nos causam medo: sofrer, sentir-nos sós, não ser amados. Podemos sentir medo de nossas contradições e incoerências. O medo é mau, causa dano. O medo sufoca a vida, paralisa as forças, nos impede de caminhar. Precisamos de confiança, segurança e luz.

"Encontraste graça diante de Deus". Não só Maria, mas também nós precisamos ouvir estas palavras, pois todos nós vivemos e morremos sustentados pela graça e pelo amor de Deus. A vida prossegue, com suas dificuldades e preocupações. A fé em Deus não é uma receita para resolver os problemas diários. Mas tudo é diferente quando vivemos procurando em Deus luz e força para enfrentá-los.

Nestes tempos, nem sempre fáceis, não precisamos despertar em nós a confiança em Deus e a alegria de saber-nos acolhidos por Ele? Por que não nos libertamos um pouco de medos e angústias, enfrentando a vida a partir da fé num Deus próximo?

ACOLHER JESUS COM ALEGRIA

O evangelista Lucas temia que seus leitores lessem seu escrito de qualquer jeito. O que ele queria anunciar-lhes não era uma notícia a mais, como tantas outras que corriam pelo império. Eles deviam preparar seu coração: despertar a alegria, desterrar medos e crer que Deus está perto, disposto a transformar nossa vida.

Com uma arte difícil de igualar, Lucas recriou uma cena evocando a mensagem que Maria ouviu no íntimo de seu coração para acolher o nascimento de seu Filho Jesus. Todos nós podemos unir-nos a ela para acolher o Salvador. Como preparar-nos para receber com alegria o Deus encarnado na humanidade entranhável de Jesus?

"Alegra-te". É a primeira palavra que escuta aquele que se prepara para viver uma experiência boa. Hoje não sabemos esperar. Somos como crianças impacientes, que querem tudo imediatamente. Não sabemos estar atentos para conhecer nossos desejos mais profundos. Simplesmente nos esquecemos de esperar Deus, e já não sabemos como encontrar a alegria.

Estamos perdendo o melhor da vida. Contentamo-nos com a satisfação, o prazer e a diversão que o bem-estar nos proporciona. Sabemos que é um erro, mas não nos atrevemos a crer que Deus, acolhido com fé simples, pode revelar-nos novos caminhos para a alegria.

"Não tenhas medo". A alegria é impossível quando vivemos cheios de medos, que nos ameaçam a partir de dentro e de fora. Como pensar, sentir e agir de maneira positiva e cheia de esperança? Como esquecer nossa impotência e covardia para enfrentar o mal?

Esquecemos que cuidar de nossa vida interior é mais importante do que tudo o que nos vem de fora. Se vivemos vazios por dentro, somos vulneráveis a tudo. Vai-se diluindo nossa confiança em Deus e não sabemos como defender-nos do que nos prejudica.

"O Senhor está contigo”. Deus é uma força criadora que é boa e nos quer bem. Não vivemos sozinhos, perdidos no cosmos. A humanidade não está abandonada. Donde tirar verdadeira esperança, a não ser do Mistério último da vida? Tudo muda quando o ser humano se sente acompanhado por Deus.

A ALEGRIA É POSSÍVEL

A primeira palavra da parte de Deus a seus filhos, quando o Salvador se aproxima do mundo, é um convite à alegria. É o que Maria ouve: "Alegra-te".

Jürgen Moltmann, o grande teólogo da esperança, expressou isto da seguinte maneira: ''A palavra última e primeira da grande libertação que vem li Deus não é ódio, mas alegria; não é condenação, mas absolvição. Cristo nasce da alegria de Deus, e morre e ressuscita para trazer sua alegria a este mundo contraditório e absurdo".

No entanto, a alegria não é fácil. Não se pode forçar ninguém a ficar alegre; não se pode impor a alegria a partir de fora. A verdadeira alegria deve nascer no mais profundo de nós mesmos. Do contrário, será riso exterior, gargalhada vazia, euforia passageira, mas a alegria ficará fora, à porta do nosso coração.

A alegria é um presente belo, mas também vulnerável. Um dom de que devemos cuidar com humildade e generosidade no fundo da alma. O romancista  alemão Hermann Hesse diz que os rostos atormentados, nervosos e tristes de tantos homens e mulheres se devem ao fato de que "a felicidade só a alma pode senti-Ia e não a razão, nem o ventre, nem a cabeça, nem o bolso".

Mas existe algo mais. Como se pode ser feliz quando há tantos sofrimentos sobre a terra? Como se pode rir quando ainda não secaram todas as lágrimas e diariamente brotam outras novas? Como ter prazer quando dois terços da humanidade se encontram mergulhados na fome, na miséria ou na guerra?

A alegria de Maria é o prazer de uma mulher crente que se alegra em Deus salvador, aquele que levanta os humilhados e dispersa os soberbos, aquele que enche de bens os famintos e despede os ricos de mãos vazias. A alegria verdadeira só é possível no coração daquele que deseja e busca justiça, liberdade e fraternidade para todos. Maria se alegra em Deus porque ele vem consumar a esperança dos abandonados.

Só se pode ser alegre em comunhão com os que sofrem e em solidariedade com os que choram. Só tem direito à alegria quem luta por torná-la possível entre os humilhados. Só pode ser feliz quem se esforça por tornar felizes os outros. Só pode celebrar o Natal quem busca sinceramente o nascimento de um homem novo entre nós.

MARIA, MODELO DA IGREJA

No começo de seu evangelho, Lucas nos apresenta Maria acolhendo com alegria o Filho de Deus em seu seio. Como enfatizou o Concílio Vaticano II, Maria é modelo para a Igreja. Dela podemos aprender a ser mais fiéis a Jesus e ao seu Evangelho. Quais podem ser as características de uma Igreja mais mariana em nossos dias?

Uma Igreja que fomenta a "ternura maternal" para com todos os seus filhos e filhas, promovendo o calor humano em suas relações. Uma Igreja de braços abertos, que não rejeita nem condena, mas acolhe e encontra um lugar adequado para cada um.

Uma Igreja que, como Maria, proclama com alegria a grandeza de Deus e sua misericórdia também para com as gerações atuais e futuras. Uma Igreja que se transforma em sinal de esperança por sua capacidade de transmitir vida.

Uma Igreja que sabe dizer "sim" a Deus sem saber muito bem para onde a levará sua obediência. Uma Igreja que não tem respostas para tudo, mas que busca com confiança a verdade e o amor, aberta ao diálogo com os que não se fecham ao bem.

Uma Igreja humilde como Maria, sempre à escuta de seu Senhor. Uma Igreja mais preocupada em comunicar o Evangelho de Jesus do que em ter ludo bem definido.

Uma Igreja do Magnificat, que não se compraz nos soberbos, nos poderosos e nos ricos deste mundo, mas que procura pão e dignidade para os pobres e famintos da Terra, sabendo que Deus está do seu lado.

Uma Igreja atenta ao sofrimento de todo ser humano, que sabe, como Maria, esquecer-se de si mesma e "andar depressa" para estar perto de quem precisa de ajuda. Uma Igreja preocupada com a felicidade dos que "não têm vinho" para celebrar a vida. Uma Igreja que anuncia a hora da mulher e promove com prazer sua dignidade, responsabilidade e criatividade feminina.

Uma Igreja contemplativa que sabe "guardar e meditar em seu coração" ti mistério de Deus encarnado em Jesus, para transmiti-lo como experiência viva. Uma Igreja que crê, ora, sofre e espera a salvação de Deus anunciando com humildade a vitória final do amor.